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VALDILENE MAGUETA
Proprietária da Farmácia de Manipulação Magistral Pharma, ela é farmacêutica industrial e pós-graduada
em Farmacologia Clínica. Diz Valdilene: a desconfiança acerca de manipulados está sendo vencida.

DATA MUNDO – O que pode e o que não pode, na verdade, ser manipulado hoje nos limites de Poços de Caldas por empresas do ramo?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Cerca de 90% das classes farmacêuticas podem ser manipuladas. Há doenças que precisam ser tratadas com vários medicamentos ao mesmo tempo. Para facilitar o tratamento, o médico ou o dentista pode prescrever uma fórmula para ser manipulada, que possibilite a associação de várias substâncias necessárias.  Alguns tratamentos requerem medicamentos que não existem no mercado. Caso a farmácia de manipulação tenha a matéria-prima, poderá atender à prescrição, manipulando o produto.

DATA MUNDO - Grande parte da comunidade ainda vê com desconfiança os chamados “manipulados”. Pensa que a falta de informação é a razão central dessa rejeição?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Com certeza. Embora as vantagens que apresentam, os remédios manipulados têm encontrado um entrave no mercado. Mesmo com os preços mais acessíveis do que os industrializados e a comprovada eficácia desse tipo de medicamento, esbarramos, sim, na falta de conhecimento e informação de boa parte da população.

DATA MUNDO – Como se dá o controle de qualidade, ou seja, como o consumidor terá certeza de que está consumindo aquilo de que precisa quando opta pelo manipulado?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - A farmácia de manipulação segue normas de boas práticas de manipulação determinadas pelo ministério da saúde. A qualidade das matérias-primas utilizadas e o processo de manipulação são, hoje em dia, rigorosamente controlados.

DATA MUNDO – A diferença de preço entre o medicamento produzido em escala industrial e o manipulado chega, em alguns casos, a ser assustadora. A velha máxima de que pra ser bom tem que ser caro ajuda a remarcar a desconfiança em torno dos manipulados?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - A desconfiança pode, sim, estar relacionada à afirmativa de que para ser bom precisa ser caro. Mas acredito que o ponto forte realmente é a falta de conhecimento dos processos da manipulação. Os remédios manipulados são medicamentos feitos com a mesma substância ativa dos medicamentos de marca. Só que apresentam algumas diferenças. Os produtos são desenvolvidos na própria farmácia e não em escala industrial como ocorre com os remédios vendidos nas farmácias tradicionais. Outro ponto: o preço, às vezes, chega a ser bem mais acessível.

DATA MUNDO – A idéia antiga das boticas, as conhecidas “garrafadas”, ação dos camelôs vendendo remédios milagrosos e outras tantas formas de picaretagem, em seu modo de ver, ajudaram a financiar a suspeita que ronda o consumidor dos manipulados?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Acredito que, hoje, o consumidor é muito bem informado e sabe diferenciar produtos vendidos ilegalmente, com produtos vendidos em uma farmácia de manipulação, que trabalha dentro da legislação vigente.

DATA MUNDO – Alguns médicos, de certa maneira, trabalham contra a manipulação ao alegarem que ela (a manipulação) é um atalho para a compra de medicamentos sem prescrição. Como vê afirmações como esta?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Pelo contrário. A farmácia de manipulação é muito fiscalizada em relação à venda de medicamentos, vendendo, portanto, somente com prescrição médica. Trata-se de uma venda toda rastreada pela Anvisa. Isso faz com que todos os medicamentos manipulados pela farmácia sejam arquivados e um livro de registro geral de todas as receitas manipuladas também seja encaminhado à Anvisa.

DATA MUNDO – Aqueles que se contrapõem ao uso dos manipulados dizem que a interferência do manipulador, ou seja, do farmacêutico responsável, aumenta em muito a chance de erros no finalizar da fórmula, transferindo esse risco para o paciente. Frente a tal proposição, o que se pode dizer?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - A produção de medicamentos manipulados, como em qualquer outra produção, tem como agente principal o ser humano. Hoje, entretanto, a farmácia de manipulação se cerca de uma alta tecnologia em equipamentos e programas desenvolvidos que, entre outras finalidades, impedem os erros durante o processo de produção.

DATA MUNDO – Quais são as classes de manipulados onde a diferença de preço em relação aos industriais pode ser a maior verificada?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - As classes com maior diferença de preços são analgésicos, anti-hipertensivos, anti-depressivos e medicamentos para o estômago (anti-ulcerosos).

DATA MUNDO – Acondicionamento, origem e qualidade da matéria-prima preocupam autoridades ligadas à saúde, levadas, assim, a fazerem alertas em torno da atividade manipulação. Você entende como toleráveis as razões para tamanha preocupação?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Acredito que essa preocupação é válida, sim, já que aumenta a margem de se ter maior segurança na produção de medicamentos. Existem legislações específicas que são seguidas pelos fornecedores para garantir a qualidade das matérias primas usadas na. E esse comportamento é seriamente fiscalizado pela Anvisa.

DATA MUNDO – A comunidade parece não ter informações suficientes em torno dos manipulados. Aceita como “minha culpa” a falta de esforço dos farmacêuticos e empresários do setor na direção de divulgarem os benefícios da manipulação?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Acredito que os farmacêuticos e empresários do setor divulgam, sim, os benefícios da manipulação. Porém, são, na maioria das vezes, pequenos empresários e têm um restrito campo de divulgação.

DATA MUNDO – Órgãos ligados à Saúde Pública têm feito muitas advertências acerca de produtos manipulados com fins estéticos, onde, talvez, sejam verificados os maiores problemas. Pensa que essa linha de produtos possa ser a “ovelha negra” da manipulação no país?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Os medicamentos manipulados, como qualquer outro medicamento, têm a função de promover saúde. No caso de medicamentos utilizados para obesidade, por exemplo, muitos pacientes necessitam, sim, da utilização de medicação para tratamento, já que muitos deles, além da obesidade têm colesterol alto, pressão alta e compulsão alimentar.

DATA MUNDO – Ao DATA, um especialista disse que a falta de profissionalização de farmácias de manipulação, bem como o emprego de equipamentos incompatíveis são questões a serem observadas atentamente. Como você espera que “o trigo seja separado do joio”, impedindo, então, que os responsáveis não paguem a conta dos imprevidentes?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Volto novamente a dizer que a falta de informação e conhecimento sobre as rotinas de produção do medicamento manipulado interferem em depoimentos como esse. Quem conhece a rotina de uma farmácia de manipulação sabe que tudo é feito dentro dos mais rígidos critérios da qualidade, e profissionais da área têm se especializado cada vez mais, com uma gama enorme de cursos, congressos, seminários voltados especificamente para a farmácia de manipulação. Os equipamentos são, sim, compatíveis com a produção. Temos disponíveis equipamentos e utensílios muito eficazes que permitem a rastreabilidade e monitoramento de todo processo, desde a entrada da receita na farmácia até o acompanhamento pós entrega do medicamento, sendo tudo documentado. Por exemplo, o processo de pesagem e encapsulamento passam por controle de qualidade com conferência. Vale dizer que só serão aproados pelo sistema se estiver dentro dos parâmetros exigidos, como o peso médio das cápsulas (pesa-se as cápsulas da fórmula e a balança conectada ao computador, traduz, dentro dos valores permitidos, a aprovação ou reprovação daquela produção) e pesagem monitorada por código de barras (todas as matérias primas possuem um código de barras e a fórmula a ser pesada possui um número de identificação. Ao iniciar-se a pesagem com o leitor óptico, lê-se o código de barras da fórmula e o programa faz a ligação com os códigos de barra das matérias-primas que compõem a fórmula. A balança também é integrada ao computador e impede que o técnico pese uma matéria-prima errada ou uma quantidade diferente da descrita na prescrição). Além de testes de controle de qualidade, que são feitos por empresas terceirizadas, como, por exemplo, teor da matéria prima por cápsula (avalia-se através de um equipamento chamado HPLC se a dose nas cápsulas correspondem a prevista), esses testes são exigidos pela legislação do Ministério da Saúde. Tudo é documentado e monitorado.

DATA MUNDO – Os chineses costumam traduzir crise como oportunidade. A crise que nos avizinha e que é, enfaticamente, anunciada para 2009, pode ser uma porta para a manipulação?

VALDILENE GUSTAVO MAGUETA - Realmente na crise cria-se, sim, a oportunidade. Foi o que aconteceu com a manipulação, onde o farmacêutico deixou de ser um simples entregador de medicamento e passou a fazer parte da produção dele, desenvolvendo seus conhecimentos e aplicando-os para exercer na essência a sua profissão. A farmácia de manipulação vem crescendo, sim, no país, cada vez, com mais notoriedade. Torcemos para que oportunidades como essa, de divulgar no site, possam cada vez mais abranger uma parte da população que ainda desconhece ou conhece de forma errônea os processos da produção de medicamento manipulado e suas vantagens.