DATA MUNDO – Como se posiciona frente às declarações de pessoas que vêm no psicólogo um invasor que, em regra, faz aflorarem ainda mais problemas recônditos?
SUELLEN BRAVO MACHADO - Não consigo enxergar o psicólogo como um invasor, uma vez que o cliente é quem procura o terapeuta e aceita as condições de tratamento ou não. Os problemas das pessoas estão presentes em suas vidas, com ou sem a presença de um psicólogo. O que nós fazemos é ajudar o cliente a desenvolver um conhecimento abrangente e realista de si mesmo, a desenvolver uma congruência ou coerência entre seus sentimentos, crenças e comportamentos, incentivá-lo a enfrentar suas dificuldades, estimulando-o a persistir em seus esforços de enfrentamento e ajudá-lo a perceber suas alternativas de funcionamento as quais dependem de uma escolha pessoal.
DATA MUNDO – Durante algum tempo, acompanhamentos psicológicos eram vistos como um luxo, destinado apenas aos mais abastados. Pensa que esse conceito já deixou de existir?
SUELLEN BRAVO MACHADO - Não, este conceito ainda existe. A Psicologia científica é uma profissão nova, fundada na Alemanha no final do século IX, pelo filósofo Wundt. Logo, a quantidade e qualidade dos profissionais, psicólogos, vêm crescendo aos poucos e, com isso, a popularização da Psicologia, ou seja, mais pessoas têm se submetido a tratamentos psicológicos. Entretanto, em meio aos diversos gastos do dia-a-dia, a terapia é a primeira a ser deixada de lado. As pessoas ainda não dão muito valor ao tratamento psicológico.
DATA MUNDO – Houve um tempo em que, como reflexo talvez de mero preconceito, os psicólogos eram consultados majoritariamente por mulheres. Pensa que essa linha de comportamento já foi superada?
SUELLEN BRAVO MACHADO - Esse preconceito é devido ao machismo. Afinal, o homem é o sexo forte, homem não chora, a exposição de sentimentos e emoções são frescuras. Todavia, esse tipo de comportamento tem diminuído e, com isso, a procura por tratamento psicológico por homens aumentado.
DATA MUNDO – Uma das críticas que se fazem aos procedimentos psicológicos é de que eles nunca têm fim, submetendo os pacientes a um processo de infinda dependência. Como reage a tal proposição?
SUELLEN BRAVO MACHADO - Essa crítica não se faz verdadeira. Existem vários tipos de tratamentos e várias correntes teóricas. Assim, dependendo do foco do tratamento, a terapia pode ser mais extensa ou não. O objetivo do psicólogo é ajudar o cliente a se conhecer, incentivá-lo a enfrentar seus problemas e ensinar-lhe a perceber as diversas alternativas existentes dentro do consultório para cada comportamento, com a intenção de que ele possa levar esse aprendizado para além consultório.
DATA MUNDO – O rótulo de “anormal” ainda amedronta grande parte das pessoas. Você pensa que fração dos indivíduos que precisam e não acessam o psicólogo o fazem temendo serem vistos como “anormais”?
SUELLEN BRAVO MACHADO - Creio que muitas pessoas ainda não conhecem bem o papel do psicólogo e, por isso, há presença de rótulos. Enfim, acredito que a pessoa que precisa e ainda assim não acessa o psicólogo, o faz por falta de conhecimento, prioridade a outros tipos de gastos e falta de tempo devido outras atividades consideradas “mais importantes”. E não por pretender afugentar o rótulo de anormal.
DATA MUNDO - Para algumas pessoas que consideram os procedimentos psicológicos uma mera “frescura”, as corridas renitentes ao divã impedem o desenvolvimento da tolerância e da resistência do paciente aos seus problemas. Vê razões para que as pessoas alimentem este pensamento?
SUELLEN BRAVO MACHADO - De maneira alguma, afinal muitas das doenças da atualidade são decorrentes da falta de tolerância e resistência a eventos estressantes presentes no dia-a-dia. Os procedimentos psicológicos têm como objetivo aumentar as habilidades sociais e de enfrentamento dos problemas, ou seja, a evolução do cliente e nunca a involução.
DATA MUNDO – Como a perspectiva inevitável da morte pode afugentar a sensação de que a felicidade é possível?
SUELLEN BRAVO MACHADO - A maior parte do comportamento humano pode ser interpretado em função da morte, embora não exclusivamente: o desejo de ter filhos para se prolongar na espécie, o medo de doenças que traz consigo o fantasma da morte, o fenômeno religioso como desejo de transcendência, etc. O temor da morte pode estar na origem de muitos sintomas e doenças psíquicas, como as insônias, a depressão, doenças psicossomáticas, diferentes medos e obsessões (no fundo, todos os medos são medos da morte). Muitas circunstâncias estão presentes neste medo e tudo o que ele envolve: o tempo (quando morrerei?), o espaço (onde morrerei?). Assim, pessoas com alta ansiedade da morte vivem mais abatidas e menos satisfeitas com a vida do que aquelas que possuem uma baixa ansiedade. A aceitação da morte constitui certamente um dos maiores sinais de maturidade humana. Daí a necessidade de uma educação sobre a morte, porque a morte, paradoxalmente, pode ensinar a viver.
DATA MUNDO – O que leva o indivíduo a romper o limite frágil que existe entre os conceitos “consumidor e consumista”? E como pode ser resolvida esta questão?
SUELLEN BRAVO MACHADO - Consumidor é todo aquele que consome, ou seja, todos nós, o consumo é necessário para sobrevivermos: para comer, se vestir, se deslocar, etc. Existem dois tipos de consumidor, o consumidor consciente e o consumista. A diferença entre o consumidor consciente e o consumista é que no consumo consciente as pessoas adquirem somente aquilo que lhes é necessário para sobrevivência. Já no consumismo, a pessoa gasta tudo aquilo que tem em produtos supérfluos que, muitas vezes, não é o melhor para ela, porém é o que ela tem curiosidade de experimentar, sendo por diversas vezes atraída pela mídia, pela moda ou simplesmente pelo produto em si. Esse consumo inconsciênte pode gerar violência, pois as pessoas que cometem crimes, na maioria das vezes, não roubam ou furtam por necessidade mas, sim, por vontade de ter aquele produto, e não ter condições de adquiri-lo. Muitas vezes o consumismo chega a ser uma patologia comportamental. Pessoas compram compulsivamente coisas que elas não irão usar ou que não têm utilidade para elas, apenas para atender à vontade de comprar.
DATA MUNDO – Mentir, para muita gente, trata-se de um recurso da autodefesa. Onde fica o limite entre a mentira como necessidade de se ter uma vida privada e da mentira como patologia?
SUELLEN BRAVO MACHADO - A mentira pode surgir por várias razões: receio das conseqüências, insegurança ou baixa de auto-estima, por razões externas, por ganhos e regalias ou por razões patológicas. Face à sua freqüência, existe certa tendência a banalizar ou até catalogar a mentira como positiva, considerada como uma forma de facilitar a integração na sociedade, e muitas vezes os que não a utilizam são catalogados como ingênuos. Mas não se deve esquecer que, durante toda a história da humanidade, a mentira causou muitos sofrimentos e fez derramar muitas lágrimas, sobretudo, quando projetada sob a forma de calúnia.
DATA MUNDO – Até onde o medo é a voz da responsabilidade e em que ponto ele passa a ser um sentimento que deve ser seriamente enfrentado?
SUELLEN BRAVO MACHADO - O medo “normal” é uma reação protetora e saudável do ser humano. Vem de estímulos reais de ameaça à vida. À cada situação nova, inesperada, que representa um perigo, surge o medo. Diante disso, nos restam duas opções: lutar ou fugir. Em princípio, lutar pode ser uma reação positiva. Entretanto, isso não quer dizer que fugir seja uma reação negativa. Tudo depende da situação e é preciso reconhecer os próprios limites. Quando há uma situação de ameaça real à sua vida, o medo não é uma reação patológica, mas de proteção e auto-preservação.
Mas deve-se ficar atento, pois os temores podem surgir em decorrência de associações que fazemos com eventos negativos anteriores. Sem discernimento do que aconteceu, o passado e o presente se misturam. O medo de que não vai conseguir é muito comum e acaba interferindo diretamente na auto-estima, no amor-próprio e na auto-confiança. Uma pessoa que não age por medo de não conseguir, não acredita em sua capacidade está perdendo também a oportunidade de reverter todo esse quadro.
DATA MUNDO – Um dos problemas mais recorrentes nos relacionamentos atuais é a busca da perfeição entre indivíduos. Como a Psicologia pode ajudar ao paciente a enfrentar essa ocorrência?
SUELLEN BRAVO MACHADO - Todas as pessoas têm um ideal de beleza. Em uma época em que a imagem física ganhou destaque, com rígidos padrões de beleza, é difícil definir até onde o indivíduo pode ou não ir em busca de um ideal estético. Se a preocupação e os investimentos estéticos ocupam um papel adequado na vida de um indivíduo, eles podem trazer até benefícios, como o aumento da auto-estima. Entretanto, essa busca da perfeição pode trazer distorções na percepção física, como no caso da dismorfofobia, ou seja, transtorno que tem como principal sintoma a preocupação excessiva por defeito corporal, real ou imaginário. O tratamento da dismorfofobia pode envolver abordagem combinada com medicação e psicoterapia. Os antidepressivos e a terapia cognitiva-comportamental podem ajudar pessoas com dismorfofobia a ultrapassar a obsessão e ansiedade acerca da sua aparência, aumentando a confiança e obtendo a normalidade nas suas vidas social e profissional.
DATA MUNDO – A auto-estima avariada pode ser, como afirmam alguns especialistas, um dos problemas centrais daqueles que perderam a perspectiva da felicidade?
SUELLEN BRAVO MACHADO - A auto-estima se desenvolve, exclusivamente, a partir de contingências sociais reforçadoras positivas amenas, e está associada à possibilidade da pessoa sentir-se livre, sentir-se amada, tomar iniciativas e apresentar criatividade. Entretanto, quando a pessoa é submetida a punições, contingências coercitivas em geral ou contingências muito intensas, tudo isso contribui para a diminuição da auto-estima, da auto-confiança, do bem-estar e a perspectiva de felicidade.
DATA MUNDO – Numa época em que a imagem é quase tudo, como a Psicologia ajuda pacientes a encararem as complexidades ligadas à compulsão alimentar?
SUELLEN BRAVO MACHADO - A terapia muito utilizada nos centros de pesquisa e tratamento de transtornos alimentares é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), uma intervenção breve, semi-estruturada e orientada para metas. A TCC ocupa-se da identificação e correção das condições que favorecem o desenvolvimento e manutenção das alterações cognitivas e comportamentais que caracterizam os casos clínicos. Ela favorece a remissão ou diminuição da freqüência de episódios de compulsão alimentar, dos comportamentos purgativos e da restrição alimentar. Pode haver também melhora do humor, do funcionamento social, e diminuição da preocupação com peso e formato corporal.
DATA MUNDO – Uma das doenças mais terríveis dos tempos modernos é a depressão. Qual o seu maior perigo? O fato de poder ser imperceptível ou a saída inexistente para alguns casos?
SUELLEN BRAVO MACHADO - O maior perigo da depressão é, quando não diagnosticada e tratada corretamente, poder conduzir ao suicídio quando a ultima réstia de esperança desaparece e a vida perde completamente o sentido. A pessoa deprimida sente-se incapaz de lidar com algo da sua vida que a atormenta, mas que não consegue identificar. Sente então que não vale a pena viver e lutar, o que a leva a afastar-se de tudo e todos podendo consumar o suicídio quando já não consegue funcionar, quando o sofrimento psíquico atinge um limiar insuportável.
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