Voltar à página inicial

VIVIANN CORRÊA TRIELLI

Sócia-proprietária do Espaço AQuatro, é graduada pela Puc/Minas Gerais, Campus de Poços de Caldas,
em Arquitetura, e pós-graduada, pela mesma universidade, em Arquitetura de Interiores, além de outros cursos.

DATA MUNDO – Até pouco tempo a Arquitetura era vista como uma prestação de serviço elitista, acessada apenas pelas classes mais abastadas. Acredita ter havido mudanças nesse comportamento social?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Hoje grande importância é dada à qualidade de vida, seja na área da saúde, da cultura e porque não, na área da Arquitetura. Toda a informação que atualmente rodeia a sociedade busca orientá-la quanto à melhoria da saúde física e mental. E por tal pensamento estar presente na mentalidade das pessoas desta geração é que a Arquitetura tem adquirido cada vez mais espaço na vida delas. Felizmente, sua importância tem se deslocado da atuação apenas em uma camada elitizada e tem se tornado cada vez mais procurada e mais acessível a todos. O projeto arquitetônico valoriza os ambientes gerando conforto a seus usuários e buscando sempre soluções criativas e novas técnicas no intuito de promover esta tão requisitada qualidade de vida com que a sociedade contemporânea tanto vem se preocupando. Com esse pensamento, acredito sim que aquele “pré-conceito” de que Arquitetura é um artigo de luxo dispensável já iniciou seu processo de decadência. A sociedade está percebendo que a função social do arquiteto não se restringe à forma, mesmo esta sendo a essência da arquitetura, mas com a ética na construção de espaços que condigam não apenas com a realidade especulativa, mas sim instruindo no sentido da preservação do planeta como um sistema inter-relacionado. O arquiteto consciente pensar promove qualidade de vida aos usuários dos espaços, seja público ou privado, sempre respeitando o meio ambiente.  

DATA MUNDO – Há clientes que vêem a Arquitetura como um “bico”, um “pronto-socorro”, no momento em que é preciso retocar o que não deu certo ou que ficou demasiadamente feio. Do ponto de vista da Arquitetura, refazer continua sendo mais caro e menos producente?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - A Arquitetura tem, sim, esta capacidade de transformar espaços, de ser, sim um, pronto-socorro para determinadas edificações. Muitas vezes, isso se faz necessário já que cada vez mais a sociedade se conscientiza de que é importante adequar o espaço em que se vive à personalidade de seus usuários. Contudo, é preciso saber que, muitas vezes, reformar acaba sendo mais caro do que se construir em virtude de imprevistos decorrentes da ausência de informações técnicas de como e com qual material tal construção foi executada. São nessas condições que reformar acaba sendo mais caro do que construir.

DATA MUNDO – Alguns setores da Engenharia sempre fizeram questão de considerar (e reconhecer) a Arquitetura como sendo um serviço acessório, auxiliar. Pensa que esta visão deixou de existir?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Acredito que na medida em que a informação se torna mais acessível pela sociedade, alguns “pré-conceitos” vão caindo por terra. Até pouco tempo esta visão do arquiteto como prestador de um serviço “acessório”existiu, assim como a idéia de que melhore aquele que entende um pouco de tudo. Hoje, como já dito, a população melhor instruída já consegue enxergar a arquitetura como uma profissão de grande responsabilidade social, assim como o fato de cada profissional atuar em sua especialidade é capaz de gerar um resultado mais satisfatório e compensatório financeiramente. Grande parcela da sociedade já consegue discernir arquitetura de engenharia.

DATA MUNDO – Entende que mesmo no caso da construção de casas modestas, residências populares, por exemplo, o arquiteto é um profissional que não deve ser suprimido?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Com certeza. Como já mencionado, o respeito com o meio ambiente, a escolha de materiais alternativos e a eficiente disposição dos cômodos visando o melhor aproveitamento e a economia de materiais é algo de forte presença na arquitetura. Esta não pode ser analisada pela riqueza dos acabamentos aplicados e sim como algo que busca a qualidade espacial, através de necessidades básicas de iluminação, ventilações bem resolvidas e aliadas à ambientes pensados para que os seus usuários realizem suas atividades de maneira segura e saudável.

DATA MUNDO – Há quem diga que quando falta grana, é quando a criatividade deve ser incorporada. A Arquitetura pode ser vista como um caminho para se burlarem orçamentos magros?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Bem, acredito que a arquitetura tem em sua essência 50% de arte, obtida pela criatividade, e 50% de técnica. De forma alguma uma edificação precisa de luxo, um orçamento elevado, para se apresentar como bem estruturada, funcional e bela, três elementos fundamentais presentes no tratado do importante arquiteto romano Marco Vitrúvio Polião, no séc. I a.c..

DATA MUNDO – No momento de ser ter uma casa aconchegante, há clientes que recorrem a algumas modernidades, como o Feng Shui, por exemplo. Como vê esses hábitos alternativos sendo adotados pelo cliente sul-mineiro?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - No mundo contemporâneo, humanizar ambientes através da arquitetura de interiores, com a valorização dos espaços, adequando-os à personalidade do usuário, tornou-se algo mais fácil e acessível. As pessoas buscam, tanto em seu ambiente de trabalho como no domiciliar, ambientes mais agradáveis, confortáveis, funcionais e bonitos, uma vez que a qualidade de vida delas depende da qualidade dos espaços que elas utilizam. Dessa forma, a arquitetura de interiores e algumas técnicas milenares ganharam destaque neste campo de atuação. Isso ocorre com mais força nos grandes centros mas já atingem os menores. Aqui em Poços mesmo, cada vez mais as pessoas buscam tais serviços.

DATA MUNDO – Algumas ferramentas como revistas, páginas na internet e simuladores estão hoje ao alcance de todo o mundo. Ao tempo em que isso democratiza o conhecimento, também permite que não-profissionais ocupem um espaço que não deveria ser deles. Como os arquitetos posicionam-se frente a esta nova demanda?
VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Penso que isso não ocorra somente na arquitetura, mas, sim, em todas as áreas, bem como como também acredito que serviços prestados dessa forma não são capazes de gerar bons resultados. O que ocorre é que tal situação culmina na disputa orçamentária desleal entre reais profissionais e profissionais da “internet”. Cabe a nós, arquitetos, valorizarmos nossa profissão e não cedermos a tais pressões. É difícil, mas é o que deve ser feito para o nosso próprio reconhecimento com profissionais de grande importância para a sociedade.

DATA MUNDO – Como você vê a importância da Arquitetura no grande apelo mundial de se revitalizarem as células centrais das cidades, tornando-as mais humanas?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Inicialmente, os “centros” foram pensados em virtude de seu posicionamento geográfico, como concentradores de prestação de serviços no intuito de facilitar a vida dos habitantes. Porém, com a crescente taxa de urbanização mundial, fatores como violência, trânsito, otimização do tempo, entre outros, surgiram e acabaram por modificar este conceito inicial. Os centros passaram a ter também uso residencial de forma a dar vida noturna a estes centros, assim como para facilitar a vida no trânsito para aqueles que ali trabalham. Em virtude deste mesmo crescimento urbano, a necessidade de se oferecerem serviços nos subúrbios também aconteceu, o que movimentou o “dia” destes espaços afastados do centro. Algumas cidades tiveram o privilégio de crescerem paralelamente a um planejamento urbano. Porém, a grande maioria cresceu desenfreadamente e desordenadamente. Mas a arquitetura tem um papel de extrema importância nessa “reorganização urbana” e muitas cidades têm apresentado bons resultados obtidos pela elaboração de planos diretores. Os centros acabaram por apresentar grande poluição visual entre outros pontos dos quais também tratam os planos diretores para obtenção de qualidade espacial para as cidades. A intenção do plano diretor é garantir que o meio ambiente e a sociedade sejam respeitados.

DATA MUNDO – Do ponto de vista da Arquitetura, até onde vai o limite de produzir o que é belo tão-somente e onde começa a preocupação de se oferecer verdadeiramente qualidade de vida?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Esta resposta está presente na visão da arquitetura não como exercício casual de uma tipologia já catalogada e assimilada, mas sim como uma atividade capaz de provocar alterações no modo de vida de seus usuários, através da absorção do conhecimento de suas reais necessidades, físicas e mentais. Tal absorção resulta em qualidade de vida. E arquitetura é esta junção, se a separarmos de tais conceitos isso não será arquitetura.

DATA MUNDO – Com essa onda preservacionista predominante, como você analisa o emprego de materiais alternativos tão divulgados pela mídia?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Tais materiais têm sido criados na busca por sustentabilidade, proteção do meio ambiente. Porém, nem todos apresentam um custo baixo. Alguns ainda são soluções mais caras. Mas a própria sociedade já vêm se conscientizando e acredito que, em breve, tais soluções terão seus custos reduzidos.

DATA MUNDO – A possibilidade de se antever o que será, por exemplo, a sua casa através de simuladores facilitou o trabalho do arquiteto ou afugentou ainda mais o cliente?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Facilitou com certeza, pois trata-se de uma ferramenta a mais no auxílio da visualização dos nossos serviços por parte dos clientes. Muitos têm dificuldade na visualização em duas dimensões, o 3D por exemplo, além de valorizar nosso trabalho sendo um diferencial, hoje é praticamente indispensável para o entendimento do mesmo pelo cliente.

DATA MUNDO – Em se tratando de Arquitetura moderna, é possível ser caro e, ao mesmo tempo, de mau-gosto ou ser barato e extraordinariamente conceitual?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI - Para responder tal questão é necessária uma breve e superficial abordagem sobre o que é arquitetura moderna. Assim, como nas outras artes, a arquitetura sofreu transformações em seus princípios, recorrendo a novas técnicas e materiais industriais. A tecnologia, aliada às novas necessidades geraram uma nova forma de arquitetar. Um dos movimentos mais importantes na história da arquitetura foi a Bauhaus, tendo como o principal objetivo social declarar que os conhecimentos técnicos deveriam ser aplicados para melhorar as condições de vida do conjunto da sociedade, não se importando apenas com a elite. Dessa forma, arquitetos com consciência social se utilizaram dos materiais possíveis através da indústria, conseqüentemente materiais de menor custo, rejeitando assim, os materiais de custo mais alto. Novas concepções de moradia surgiram, como a de Le Corbusier que a pensava como uma “machine à habiter” (máquina habitável). Isso foi a arquitetura moderna, uma arquitetura marcada pela horizontalidade e simplicidade das formas, ausência de exageros, entre outros pontos. Quanto aos termos “mau gosto” e “conceitual”, é difícil utilizá-los na arquitetura, pois são definições relativas, pessoais. Mas penso que é possível um colega de profissão se utilizar de um sistema construtivo ou formal caro que não seja do meu gosto, assim como de um sistema de menor custo e que apresente um resultado, a meu ver, de muito bom gosto.

DATA MUNDO – Acredita mesmo que a Arquitetura tem, de fato, o poder de melhorar o mundo a partir de coisas pequenas como - guardados os exageros - o abrir e o fechar de uma porta?

VIVIANN CORRÊA TRIELLI – Sim, pois vejo a arquitetura não apenas como uma profissão, um trabalho, uma disciplina; e sim como uma ferramenta capaz de tornar tudo mais confortável, útil e alegre. Através da “arquitetura”, espaços tristes e sem vida tornam-se alegres; espaços sem acessibilidade tornam-se acessíveis; e não pára nisso, o efeito que a estética desta profissão causa vai muito além do conforto material, atinge a espiritualidade, o emocional de cada indivíduo. Por isso, ser arquiteto é muito mais do que mais um trabalhador, é lidar com sonhos, com símbolos de conquista, com sentimentos e sensações. Para se tornar um arquiteto então, não basta adquirir os conhecimentos técnicos, é preciso somar a isto o lado humano e social, é preciso entender, saber interpretar e absorver a necessidade e expectativa de cada usuário do espaço a ser criado, sempre com muito respeito e consciência ambiental. Ser arquiteto é ter a consciência do poder de transformar vidas, comunidades, sociedades, enfim, é ter responsabilidade social e exercê-la, é uma missão! O fato é que cada profissão existente tem sua função social e se torna de extrema importância quando bem aplicada. Qualquer profissional pode e deve fazer a sua parte na contribuição por um mundo melhor e mais justo. Cabe a cada um analisar o seu potencial e aplicá-lo em sua comunidade.