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ANALI SANCHES
Graduada em Economia, com extensão em Logística Empresarial na Fundação Getúlio Vargs e pós-graduada em Administração de Empresas, ela é sócia-proprietária da Atmosfera Authentic Fashion. Atuou no CitiBank.

 DATA MUNDO - Alguns críticos da indústria contemporânea dizem que a moda, a exemplo do capitalismo, está construindo na sociedade um grande vazio que poderá se voltar contra a própria indústria, tornando a moda obsoleta e totalmente ignorável no futuro. O que pensa desse tipo de proposição?

ANALI SANCHES - Pensando bem não acredito nesse tipo de proposição, é só analisar os dados: o mercado da moda ocupa o segundo lugar como o setor privado que mais emprega no país. Para se ter uma idéia do que isso representa, estamos falando de cerca de 1 milhão e 500 mil pessoas, considerando a população economicamente ativa do país, ou seja, a  indústria da moda brasileira ganha cada vez mais espaço no mercado nacional e internacional. Na visão dos especialistas, essa explosão do setor tem uma forte ligação com o sucesso que as modelos brasileiras estão fazendo no exterior e, principalmente, pela qualidade do material (tecidos, vestuário, sapatos e outros) produzido e exportado pelo Brasil, uma espécie de marco para a indústria têxtil nacional. O mais interessante é que o Brasil sempre foi exportador de matéria-prima básica. Hoje, ele exporta valor agregado, o produto já confeccionado, o que traz divisas para o país e ajuda a aquecer a economia. Se comparado aos outros países da América Latina, o Brasil é claramente mais desenvolvido e possui uma indústria têxtil muito poderosa. Além disso, com uma imagem de beleza bastante difundida, que começou com a era Gisele Bündchen, de beleza universal e multicultural, o Brasil tem um potencial enorme a ser explorado.

DATA MUNDO - Já que tem negócios em vários centros, como vê, por exemplo, o papel da mídia que se esforça para esmagar os regionalismos tentando impor, via novelas, desfiles e revistas famosas, uma tendência única em um território, como o brasileiro, que é tão múltiplo de cultura e costumes?

ANALI SANCHES - Eu diria que a moda ganhou contornos ainda mais sedutores com a publicidade; anúncios em revistas, jornais, outdoors cada vez mais requintados, com mulheres ideais, peles saudáveis, além da televisão que traz desfiles e novelas que, constantemente, lançam tendências e celebridades. Acredito que a mídia é uma arma de grande poder neste mundo, sendo ela quem comunica, quem anuncia e quem leva as necessidades aos consumidores, o que gera a satisfação pelo consumo exacerbado. A moda desperta no indivíduo o encanto, a necessidade de sonhar e de consumir. Sedução, glamour, beleza, reconhecimento, prestígio, sonho, vaidade e perfeição essas são algumas das definições apresentadas por meio da mídia sobre seus respectivos produtos. Tudo isso só é possível porque, hoje, a moda é vertente de grandes negócios.

DATA MUNDO - Algumas pessoas tentam fazer da moda o contraponto da cultura. Assim, a sensação que se tenta passar, é que os bem-vestidos não são necessariamente os cultos, criando referências como “patricinhas” e “mauricinhos”. Em sua opinião, debater essa relação de antagônicos faz sentido ou é uma grande bobagem?

ANALI SANCHES - Em minha opinião diria que debater essa relação com certeza é uma grande bobagem. Afinal, o que podemos perceber é que as pessoas cada vez mais adquirem estilos próprios, e buscam o seu bem-estar, independentemente de sua condição socioeconômica. Quando se fala em “moda”, logo vem à mente roupas, sapatos, acessórios, penteados com suas cores e brilhos, como sendo todos determinados por estilistas conceituados. Porém, o termo moda é muito mais que isso. É uma maneira de comunicação não-verbal que nos leva a conhecer as grifes, quem as desenha e quem as usa. Ela é determinante no mercado, pois além de seduzir, encanta e determina o perfil de cada um.

DATA MUNDO - Num mercado tão volátil, que muda a todo instante, o que o empresário do setor deve ter em mente? Ser realista para não se ver à frente daquilo que o cliente quer, ou se atualizar obsessivamente para não ser anterior ao que o consumidor está usando?

ANALI SANCHES - Há algum tempo podemos observar o quanto à moda vem se transformando a cada dia, e com uma evolução notória; quer seja através do resgate de estilos através da história ou simplesmente pelas tendências mundiais.  Particularmente, tratando-se de alguns desfiles de moda que estive acompanhando, percebe-se a concentração de diferentes estilos. E o mais interessante é que, na maioria das vezes, e acredito que isso quase sempre acontece, as “modelos” preferem desfilar “modelitos” que realmente demonstrem o seu estilo próprio, combinando o que é tendência atual mais o estilo próprio de cada uma delas, seja ele mais despojado, tradicional ou ousado, não importa, o resultado desta combinação nos proporciona um “Glamour” com mais autenticidade e naturalidade. Minha opinião, portanto, é que, com essas combinações de estilos, sejam aliadas à estratégia de cada “grife”, que as mesmas poderiam lançar suas coleções, apresentando muito mais autenticidade e oferecendo ainda mais confiabilidade e credibilidade aos seus clientes.
 
DATA MUNDO - A idéia de que o consumidor de moda é sempre o “manipulado”, vez que ele usa o que a indústria dita e não o que ele gostaria de usar, é uma verdade? Ou um exagero conceitual?

ANALI SANCHES - Eu acho um exagero conceitual. A moda brasileira está conseguindo tangibilizar nosso estilo de vida, o modo de viver, os costumes e a cultura brasileira em seus produtos, valor extremamente desejado no exterior. Prova disso é que, nos últimos cinco anos, a identidade dos modelitos presentes nos desfiles como o São Paulo Fashion Week, mudou muito. "Há cinco anos, copiávamos muito mais as culturas americana e européia. Hoje, o Brasil já tem seu próprio design, bastante competitivo.

DATA MUNDO - O que o consumidor de moda deve mirar para evitar que, na estação seguinte, o seu guarda-roupa não seja um grande museu?

ANALI SANCHES - O consumidor deve mirar o seu bem-estar. E estar na moda é estar bem consigo mesmo. E não importa o que a sociedade impõe, nós devemos impor nossas vontades, porque moda existe para todos os estilos. Você só precisa montar o seu. E considere que o que você veste fala muito sobre o que você é... Seguir uma moda só porque ela está em alta, significa negar o seu próprio estilo, ou a sua personalidade, o seu eu. O mais importante é sentir-se bem. A única coisa imprescindível e inevitável é que esteja adequado para a ocasião, é claro. Você não pode chegar a uma festa de luxo de tênis e bermuda. Adeque-se ao movimento, dentro do que você julgar especial.

DATA MUNDO - Em sua opinião, o que a indústria pretende com a moda que não tem vida fora das passarelas e que parece ser produzida exclusivamente para um biotipo que tem pouco a ver com o biotipo nacional?

ANALI SANCHES - Ao contrário do que se pensa, a realidade é o de demonstrar ao mercado nacional e internacional conceitos, tendências, a valorização da nossa cultura, a exemplo da São Paulo Fashion Week semana de moda de São Paulo 2009 que aconteceu em janeiro, na Bienal de SP, onde foram apresentadas as tendências Outono Inverno 2009. Esse evento apresentou o tema “Brasileirismos” e utilizou o conceito de valorização da cultura nacional, com grande destaque para moda brasileira. O objetivo foi promover a brasilidade, realçar a leveza e a alegria do povo brasileiro e homenageou um ícone internacional do Brasileirismo, a ilustre Carmem Miranda, com a celebração do centenário de seu nascimento. O tema desta SPFW nos liga diretamente à nossa identidade nacional. A idéia sobre ‘Brasileirismos’ caiu como uma luva em relação aos acontecimentos deste ano: a mudança das regras gramaticais do Português, que irá aproximar mais ainda os países que falam a mesma língua e que, de alguma forma, contribuíram para a construção desta identidade cultural, além do centenário de nascimento de um dos maiores ícones musicais e visuais do último século – Carmem Miranda! Precisa mais?

DATA MUNDO - Este é um país múltiplo, com uma enorme miscigenação que, por sua vez, produz inúmeros biotipos. Este é um fator que complica a vida de quem quer produzir e vender moda?

ANALI SANCHES - Eu acredito que não seja algo tão simples assim, mas atualmente temos ótimos profissionais cujo objetivo é identificar a necessidade da empresa e fazer um estudo de mercado encontrando soluções para que seus produtos sejam bem comercializados. Este trabalho é bastante dinâmico, já que a cada seis meses tem se que começar tudo do zero. A cada troca de coleção, ou seja, primavera/verão e outono/inverno, os estudos e as metas são completamente diferentes. É preciso também identificar as necessidades dos diferentes pólos de consumo para expandir os negócios de região para região. Aí, o que conta é a expertise e o conhecimento das novidades do mercado, além do feeling em relação ao perfil dos consumidores das diferentes regiões.

DATA MUNDO - Ou se vende moda para os ricos ou se vende moda para pobres. Um mercado multifacetado como o nosso dificulta, de fato, descobrir a real vocação do seu negócio?

ANALI SANCHES - Não muito pelo contrário, não haverá dificuldades se elaborarmos um plano de negócios bem definido com o público alvo que queremos atingir.

DATA MUNDO - Qual é, em sua opinião, o grande combustível das empresas bem-sucedidas como o negócio da moda?

ANALI SANCHES - Em minha opinião, as empresas, independentemente do negócio em que atuam, precisam ter uma direção, um plano de negócios bem definidos, elaborarem estratégias para o mercado em que atuam, e se no meio deste percurso perceber que a estratégia não foi a mais indicada, ter a habilidade e agilidade de rever e seguir em frente para atingir os objetivos, e, principalmente, ter uma equipe motivada e envolvida com o negócio, que no meu conceito se resume assim: “A informação gera conhecimento. Conhecimento gera envolvimento. O envolvimento gera comprometimento. O comprometimento gera sabedoria e a sabedoria gera resultados”.

DATA MUNDO - Num momento nacional em que o debate central é a “crise”, a idéia de que o consumidor pode afugentar o que ele imagina ser supérfluo preocupa os negócios da moda?

ANALI SANCHES - É preocupante sim. Ainda mais o nível de desemprego que aumenta todos os dias. Mas analiso que este segmento é um dos mais otimistas e busca cada vez mais inovação. Acho quem até por uma questão de sobrevivência, atualmente existem grifes conceituadas no mercado com sérios problemas financeiros, mas que precisam se adequar à realidade brasileira. Em compensação existem grifes em total ascensão, com crescimentos significativos, como já disse anteriormente, porque estão junto de seus clientes conseguindo tangibilizar nosso estilo de vida, o nosso modo de viver, nossos costumes e a cultura brasileira em seus produtos. Procuro também pensar sempre de forma “otimista”, admirar e me espelhar em empresas de sucesso, eu vou repetir algo que li recentemente (autor desconhecido):
"Não pretendemos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo.
 A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia.
 É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes
 estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar "superado".

DATA MUNDO - Frente à nova realidade financeira nacional que está sendo desenhada, quais serão as diretrizes da sua empresa para o ano de 2009?

ANALI SANCHES - Trabalho, trabalho e muito trabalho, através de um planejamento bem definido, ou seja, com objetividade em cada etapa: o que fazer? Como fazer? Quando fazer? Quem? E quanto vai custar pra fazer. E manter cada vez mais nossos colaboradores, fornecedores, representantes e parceiros de negócios sempre motivados e comprometidos com os nossos clientes buscando sempre a excelência nos resultados.