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JAMES WARLEY
Empresário e advogado, ele tem sido reconhecido pelas “Palestras Motivacionais” que ministra nos
estados de Minas Gerais e São Paulo. É o coordenador do atendimento Fraterno à distância.

DATA MUNDO – Do ponto de vista espírita, como absorve a máxima que diz que “o ser humano é inviável”?

JAMES WARLEY - Entendemos que o ser humano é um ser perfectível em evolução, encontrando-se na infância de seu progresso moral. Mas não concebemos que qualquer criação divina seja inviável, como preceitua Millôr Fernandes, por exemplo. Imperfeito sim, mas inteligente e livre para alcançar a sua redenção exemplificada por Jesus.

DATA MUNDO – Há um sentimento geral de que, na medida em que a sociedade avança do ponto de vista da tecnologia, do conhecimento acadêmico e dos bens de consumo, ela vai afugentar inevitavelmente a perspectiva de Deus. Acha imprecisa esta afirmação?

JAMES WARLEY - Nada que acontece no mundo foge à programação divina. Nosso principal objetivo, nesse estágio terrestre, é o progresso moral, mas o amadurecimento intelectual é inevitável, aliás, necessário. Cabe-nos a sabedoria de bem conviver com ambos os aspectos.

DATA MUNDO – As Escrituras Sagradas advertem que é “mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Do ponto de vista espírita, é um prenúncio claro de que dinheiro e felicidade são definitivamente incompatíveis?

JAMES WARLEY - A felicidade é um sentimento íntimo de que todos somos portadores. Sem dúvida que a riqueza pode ser entrave ao progresso nas mãos daqueles que não assimilarem a necessidade da prática do “amor ao próximo” como premissa à cura d’alma. Pelos talentos a nós confiados, prestaremos contas. Para entrar no Reino de Deus, rico ou pobre, a ação nobre é o pressuposto.

DATA MUNDO – Para algumas facções espíritas, o princípio da caridade talvez seja a mais importante obra da fé. Como os ricos que venham a desejar ser espíritas devem encarar esse preceito?

JAMES WARLEY - De antemão, esclareço que o Espiritismo é um só, codificado pelo filósofo francês Allan Kardec; portanto, não se compõe de facções ou ramificações. Para esta doutrina consoladora, a caridade é o único caminho que nos leva à excelsitude, por contemplar todas as demais virtudes. Este é o prisma a ser encarado por aquele que deseja trilhar o caminho cristão. O que se pede, é que comecemos a valorizar mais as atividades sociais que as profissionais; que não troquemos os compromissos cristãos por qualquer outro. Isto é permuta insana de valores. Todos são chamados, mas poucos serão escolhidos.

DATA MUNDO - A reencarnação talvez seja o ponto mais combatido por aqueles que se contrapõem ao Espiritismo. Em que os espíritas embasam a perspectiva de uma vida futura e o registro de uma vida passada?

JAMES WARLEY - Quanto à vida futura, já é comum na maioria das religiões a crença na sobrevivência da alma após a morte do corpo físico, mas acreditar que, em seguida, “adormeceremos” para aguardar o dia de um “julgamento final”, seria subestimar a sabedoria divina, que certamente preparou algo muito mais proveitoso que a ociosidade dos que partem. Imagine quantos estariam dormindo desde a vinda de Jesus! Ao chegarmos ao mundo espiritual, nossa vida continua, e com ela, a busca pela nossa perfeição. Além deste mundo, existem outros lugares, ocupando diversos níveis de evolução. Deus não habitaria, na imensidão do universo, somente um planeta, muito menos, com tanto sofrimento como a Terra. Como esclareceu nosso Mestre Jesus, “Há muitas moradas na casa de meu Pai”.

No que tange às vidas passadas, é muito fácil entendermos a grandeza de nosso Pai que, como o repetente numa escola, nos renova na Terra as oportunidades de vivermos novas existências, em busca do amadurecimento e da reforma íntima - geralmente não conquistados numa só existência, através do resgate resignado dos débitos contraídos e das provações que nos convidam ao aprendizado constante. São claras as palavras de Jesus quando nos ensina que “Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não nascer de novo”, ou “João Batista é o Elias que há de vir”, etc... Contudo, interpreta-se seus ensinamentos de acordo com interesses pessoais, repelindo o resultado amplo a que os mesmos se destinam. Ora, não existisse a doutrina reencarnacionista que nos explica que os nossos sofrimentos estão de acordo com as nossas faltas, como aceitaríamos pacificamente a Justiça de Deus? Por que uns sofrem mais do que os outros desde a infância? Por capricho divino? Pagamos pelos erros de nossos pais ou de Adão e Eva? Tente explicar isso para um deficiente visual ou auditivo, por exemplo, que desde o nascedouro tenta entender a sua má estrela. Para ele, não seria revoltante? A culpa pelo seu sofrimento seria responsabilidade de outra pessoa ou da genética, simplesmente? A verdade é que nós pagamos pelos nossos próprios erros, praticados nesta vida presente ou em vidas anteriores. Esta sim, a melhor compreensão para os ensinamentos de Jesus em harmonia com a Justiça Celestial. Não mais somente o Espiritismo, enquanto religião, colabora esclarecendo o fenômeno reencarnatório, mas a ciência. São muitas as dúvidas que surgem diante daqueles que buscam mais esclarecimentos sobre o tema, mas a pesquisa conta com literatura racional, séria e extensa. Dentre as dúvidas, é comum perguntarem se reencarnamos infinitamente. Então, esclareço que, como numa escola, ao final de um período, se fizermos por merecer, pelos nossos esforços, alcançaremos novos estágios, em mundos melhores, esse é justamente o nosso objetivo.

DATA MUNDO – Para alguns intelectuais reconhecidos, o Evangelho foi visto, durante algum tempo, como um instrumento da passividade, do conformismo patológico e do esfriamento de tensões entre os desiguais (socialmente falando). Como analisa tal proposição?

JAMES WARLEY - Até os tempos de hoje, um grande número de pessoas simplesmente acredita naquilo que as autoridades religiosas ensinaram aos seus antepassados, sem, contudo, analisarem a lógica da Justiça de Deus sob novos aspectos. O mundo evolui, e com ele, os valores.  A opinião e a crença devem ser formadas com muita cautela, razão e bom senso. Aquilo que Moisés nos ensinou, foi aperfeiçoado por Jesus. Hoje, as palavras do Mestre permanecem, mas a sua interpretação deve acompanhar a evolução dos tempos. Esse “conformismo” ou “aceitação do sofrimento” devem surgir naturalmente, em cada um de nós, pelo estudo e compreensão dos ensinamentos cristãos, e não simplesmente por que aprendemos assim. A fé cega não resiste ao tempo. Quando estamos moralmente empobrecidos, nossa ingenuidade nos permite acreditar que 1 + 1 é igual a 3, e revelamos esse dogma aos nossos filhos e aos nossos netos. Contudo, quando analisamos, racional e logicamente, descobrimos que a lição não está em harmonia com os princípios da Sabedoria e Justiça de Deus. É o momento de nos despertarmos para a realidade, soltando-nos das amarras e charruas evangélicas impostas.

DATA MUNDO - Para o Espiritismo, mais do que para outras religiões, o conceito de que palavras e pensamentos têm a capacidade de materializar desejos é recorrente. Não acha esse preceito difícil de ser resgatado na prática? 

JAMES WARLEY - O Espiritismo não é somente religião, mas também ciência e filosofia. A ciência espírita é capaz de provar que o pensamento produz resultados físicos. A oração a um doente, por exemplo, quando realizada com fé, cura. O pensamento negativo, cria o obstáculo mentalizado. Estamos imersos numa substância chamada Fluido Cósmico Universal, como peixes num aquário. Esse fluido é o meio pelo qual nossos pensamentos viajam e alcançam seus destinos. Por isto, entendemos, com mais razão, por que não devemos, por exemplo, falar mal das pessoas ou tomarmos decisões nos momentos de nervosismo. Somos produtos do meio, que é produto de nossos pensamentos.

DATA MUNDO – Como a depressão, reconhecida patologia do mundo moderno e tratada por procedimentos medicamentosos, é vista e analisada pelos espíritas?

JAMES WARLEY - A ciência humana ainda não detectou a causa da depressão.  Acreditamos que seja inorgânica, mas pode desenvolver problemas orgânicos. A experiência no atendimento às pessoas deprimidas nos levou a entender que a ociosidade, a decepção, as dificuldades de diversas ordens podem desencadear a tristeza, que se não combatida, se desenvolve em angústia, momento em que se inicia o processo de prejuízo físico e/ou mental, que chamamos depressão. Temos visto que a dedicação a uma causa social, a participação em atividades filantrópicas nas casas espíritas e entidades assistenciais tem sido o melhor tratamento, permitindo aos deprimidos uma recuperação maravilhosa e uma qualidade de vida jamais experimentada.

DATA MUNDO – A perspectiva da “prestação de contas” parece ser muito evidente entre os espíritas. Você vê aí um claro enfrentamento dessa perspectiva com aquilo que, em muitas religiões, é chamado de destino? 

JAMES WARLEY - Prestamos contas de nossos atos a todo momento, logo em seguida às nossas atitudes, pela aclamação de nossa consciência. Deus nos deu a liberdade nas decisões e a responsabilidade pelos nossos atos. Analisando-se, concluiremos que a maioria dos nossos sofrimentos foi provocada por nossa própria incúria, de sorte que se nos fosse dada nova oportunidade, agiríamos mais prudentemente. Construímos o nosso futuro, mas seremos, fatalmente, responsabilizados pelos nossos atos... talvez, aqui, a confusão no que se entende por destino. Contudo, cabe a nós evitar a dor que o amor pode pagar.

DATA MUNDO – Há uma forte reação de algumas religiões quando se propõe que Jesus Cristo foi o maior médium que passou na face da terra. É apenas uma questão de nomenclatura ou há uma discordância conceitual quanto a essa afirmação?

JAMES WARLEY - Jesus foi o ser mais perfeito que já habitou nosso planeta. Ele foi o maior em todos os aspectos de bondade, sabedoria e amor. Portanto, foi também o maior médium. Mediunidade não é um fenômeno criado pelo Espiritismo, não é um privilégio dos espíritas. Muitas pessoas, mesmo contrárias ao pensamento cristão, têm essa faculdade, com a qual não sabem lidar. A ciência Espírita estuda a Mediunidade, tendo-a como instrumento de ajuda. Mediunidade é, basicamente, a sensibilidade que algumas pessoas têm, cada um num grau de desenvolvimento, de perceber a existência do plano espiritual, seja pela visão, audição, olfato, podendo se manifestar pela fala, escrita, tato, etc. Não tem nada de misterioso, esotérico, mágico, como alguns leigos afirmam, mas faz parte da natureza, considerando que somos seres infinitos.

DATA MUNDO – Recentemente, houve um embate muito forte entre o Movimento Gay do Brasil e algumas igrejas evangélicas consideradas homofóbicas. Como o Espiritismo trata a questão do homossexualismo?

JAMES WARLEY - A Doutrina Espírita não cria regras, mas nos adverte quanto às conseqüências. Não proíbe atitudes, mas nos imputa as responsabilidades. Para desenvolver o nosso equilíbrio, Deus permitiu a existência das tentações. Conforme nossas vitórias, novas oportunidades nos são apresentadas, até a conclusão de nosso processo de aperfeiçoamento. Assim como a bebida, o cigarro e o entorpecente, o sexo desregrado é tentação a ser vencida, de modo que o equilíbrio seja alcançado. Contudo, até a assimilação desse entendimento, merecemos respeito e compreensão.

DATA MUNDO – Em seu modo de ver, a “morte” de Chico Xavier enfraqueceu o Espiritismo no Brasil e no mundo?

JAMES WARLEY - Chico Xavier foi o exemplo de pessoa que faz o bem desinteressadamente. Milhares de seus livros foram vendidos e ele jamais obteve proveito econômico desse trabalho, que poderia lhe ter rendido uma fortuna. Quem lê os seus livros, irmãos das mais diversas religiões, passam a encarar a vida de forma diferente e se tornam pessoas melhores e mais felizes. Sua preocupação foi apenas com a divulgação da doutrina consoladora que ganha força a cada ano. Para os adeptos do Espiritismo, sua morte foi apenas a mudança de seu endereço, pois ele continua executando seu propósito, fortalecendo, ainda mais, as colunas da doutrina.